EDITOR: Edgar Olimpio de Souza (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

 

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Teatro: Eigengrau - No Escuro

Quatro jovens em torno dos vinte e poucos anos se mostram nitidamente ansiosos por encontrar alguma ligação humana real e consequente. Mas há barreiras a superar, porque eles são moralmente flexíveis e estão engolfados em uma crise de identidade. O interessante texto da dramaturga inglesa Penelope Skinner, cujo título é uma palavra alemã que alude à cor vista pelo olho em plena escuridão, busca desconstruir convenções da comédia romântica. O que o público acompanha é uma espécie de ciranda amorosa disfuncional, avivada pelos impasses e angústias típicos dos relacionamentos da vida moderna.

Uma estridente feminista, Carol, divide apartamento alugado com a ingênua Rosa, contatada por meio de um site específico. Enfeitiçada por símbolos e numerologia, a nova inquilina se apaixona pelo publicitário Marcos, com quem dormiu apenas uma vez. O mulherengo abriga em seu apartamento um antigo colega de universidade, o ocioso e deprimido Tomás, em luto pela morte da avó. Circunstâncias especiais fazem com que Marcos se aproxime de Carol e Tomás se interesse por Rosa.

Estreia da companhia Delicatessen Teatral, criada em 2014 com o propósito de encenar obras inéditas no Brasil, a peça dirigida por Nelson Baskerville compõe um fotograma de humor avinagrado sobre as frustrações, inseguranças e instabilidades inerentes a certa juventude. A trama começa com problemas e questões triviais, como a luta cotidiana pela sobrevivência. Aos poucos, o enredo adquire outros contornos e passa a desdobrar uma rede de conexões e desconexões casuais que envolvem uma geração carente e à deriva em uma grande metrópole.   

Carol, Rosa, Marcos e Tomás vivem de ilusões e autoenganos. Literalmente estão tentando abraçar algo que porventura não saibam bem o que seja. A dramaturgia não se insinua por uma narrativa sentimental sobre encontros e desencontros afetivos. De maneira astuta, o clichê funciona para instaurar uma alegoria sobre a dificuldade que muitas pessoas têm de lidar com a realidade.

É o caso das figuras que povoam essa história. Uma delirante Rosa acredita em fadas, gnomos e outros seres sobrenaturais. Até em amor à primeira vista. Por isso, não economiza esforços para conquistar o coração do predador sexual Marcos, um tipo camaleão na hora de seduzir as fêmeas. Em vez de quitar o aluguel atrasado, acaba investindo o parco dinheiro para comprar um vestido sexy. Ela se aviltará em um desesperado ato de felação, que transforma a audiência em voyeur, e, mais adiante, irá se autoflagelar, ao cometer um gesto terrível de clara inspiração na tragédia de Édipo.

A ativista Carol vocifera ladainhas raivosas em defesa da igualdade de gêneros. Atualmente dá tratos finais a um discurso contra sites pornográficos e vídeos de violência contra a mulher. No entanto, a altivez manifestada se dilui ao se deixar seduzir e dominar por um sujeito de baixos instintos, que chega a afirmar sem corar ter se convertido ao feminismo. Em momento ziguezagueante, ela confessa a Marcos desejos nada coerentes com suas habituais pregações.  

Por sua vez, o rechonchudo Tomás parece ilhado na tristeza da perda da avó e mal consegue se desvencilhar do vaso com as cinzas dela. Por sinal, as cenas que abrem e fecham o espetáculo procuram frisar o raciocínio bíblico de que, se nascemos do pó, ao pó regressaremos. Tudo o que ele realmente deseja é uma companheira para chamar de sua. Comporta-se como tolo ao cruzar o caminho de Rosa, que não percebe a afeição dele por ela. A coreografia dos afetos mal construídos vai derrubar a todos sem compaixão.

Tais idiossincrasias e descompassos desses personagens rendem passagens engraçadas que capturam a plateia pela naturalidade com que se apresentam. A eficaz direção de Baskerville despreza as marcações rígidas e a encenação se impõe com franqueza, deslizando sem embaraços desnecessários. As diferentes situações se sucedem e se equilibram em ritmo dinâmico – em instantes pontuais uma frenética correria sinaliza o avanço do tempo. A ação transcorre em um cenário urbano pichado e opressivo. O piso é demarcado geometricamente por linhas que ambientam os dois apartamentos. Na borda, um balcão simula um restaurante fastfood, sítio de um diálogo hilário entre Tomás e Rosa, e uma estilizada cabine telefônica serve para representar um karaokê. Na parede ao fundo, em situações importantes, frases minimalistas, pensamentos e letras de músicas são projetados.   

O elenco exibe clara sintonia com a obra e sua tribo de criaturas vulneráveis. Renata Calmon magnetiza na composição da genuinamente instável Rosa, uma moça obcecada e vaidosa. Seu desembaraço é palpável e gera rápida empatia. Sem ceder à caricatura, Andrea Dupré encarna a complexa Carol, que mal consegue mascarar suas inseguranças. A atriz consegue ser crível na transição entre as convicções feministas e a submissão sexual. Daniel Tavares evidencia em Marcos o perfil de conquistador arrogante, mas nunca desagradável. Com sutileza, ele mantém o espectador cético em relação ao caráter de sua atração por uma garota supostamente incompatível. Sem investir no estereótipo, Tiago Real valoriza e infiltra sentimentos puros ao cabisbaixo e desajustado Tomás.

Mesmo que nas entrelinhas, o texto irradia o peso das expectativas que a sociedade despeja sobre jovens adultos, que tentam achar uma zona de conforto entre o sonho e a realidade, a razão e o instinto. Com olhar afiado, a autora observa estes adolescentes extemporâneos, presas fáceis das ciladas amorosas e das armadilhas da vida. Rosa e Tomas podem ser as figuras mais patéticas, na contramão de Marcos e Carol, na aparência, mais frios e firmes. As diferenças, porém, não corrompem o fato de que todos eles, em graus variados, escancaram uma notória incapacidade de avaliar corretamente evidências e sinais. O tempo inteiro, o grupo se defronta com verdades desconfortáveis e dolorosas. Não por acaso o nome da peça fala sobre o tom cinza escuro que se vê na ausência de luz.    

(Edgar Olimpio de Souza – O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. )

(Foto Daniel Spalato)

 

Avaliação: Bom

 

Eigengrau – No Escuro

 

Texto: Penelope Skinner

Direção: Nelson Baskerville

Elenco: Andrea Dupré, Daniel Tavares, Renata Calmon e Tiago Real

Reestreou: 6 de maio

Funarte (Alameda Nothmann, 1058, Campos Elíseos. Fone: 3662-5177). Sábado e domingo, 20h. Ingresso: R$ 40. Até 28 de maio.

 

 

 

 

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