EDITOR: Edgar Olimpio de Souza (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

 

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Teatro: Roque Santeiro

A cidade onde se passa a ação é um tipo de alegoria do Brasil. Trata-se de um lugarejo que lembra o cotidiano das pequenas cidades do País, povoada por tipos bastante caricatos que articulam o poder e exercem domínio sobre o povo. Na fictícia Asa Branca há um deputado, o fazendeiro endinheirado Sinhozinho Malta (Jarbas Homem de Mello), que chefia politicamente o local. Um comerciante, Zé das Medalhas (Samuel de Assis), novo rico fabricante de medalhinhas. Uma mulher de trejeitos vulgares (Lívia Camargo), convenientemente transformada em viúva sem nunca ter casado. Um padre hipócrita (Edson Montenegro), capaz de acender uma vela para Deus e outra para o Diabo. Um prefeito, totalmente submisso e sem autoridade (Dagoberto Feliz).

Assinada por Débora Dubois, a eficiente montagem não alivia essa fauna de gente corrupta e sem integridade. É uma encenação opulenta em símbolos e metáforas. Escrita em 1963 pelo dramaturgo Dias Gomes (1922-1999), a peça, então com o nome de O Berço do Herói, foi proibida pela censura, que implicou com o eixo principal do texto, a desconstrução de um mito militar. Em 1975, já com o nome de Roque Santeiro e em formato de telenovela, não teve melhor sorte e foi suspensa. Apenas uma década depois estreou finalmente na telinha, com pontuais alterações. O êxito foi tamanho que o autor, em nova versão teatral, decidiu manter o novo título e os nomes dos personagens televisivos. Para sua opereta popular, como definiu a obra, ele chegou a escrever letras para serem eventualmente musicadas. Trabalho, aqui, assumido por Zeca Baleiro.

O espetáculo chega aos palcos na onda de adaptações teatrais de folhetins famosos. No ano passado, Os Dez Mandamentos emplacou carreira vitoriosa. Recentemente foi a vez de Carrossel, o Musical. Mais adiante estreará Vamp.

A trama envolve o público pela forma como radiografa as estratégias de dominação e seus tentáculos. Convocado, Roque foi lutar na Segunda Guerra Mundial e, covardemente, fugiu em meio a uma batalha, refugiando-se na Europa. Dado como desaparecido, foi aclamado por todos os conterrâneos como herói de guerra morto. Graças à exploração do mito, Asa Branca enriqueceu e se tornou pólo de peregrinação turística. Ninguém esperava, no entanto, que num determinado dia ele voltasse. Seu regresso quinze anos depois, para desespero dos poderosos, pode minar a prosperidade do município e desnudar a engrenagem da construção da lenda. Ou seja, o povo não pode saber da verdade. 

A direção se desincumbe com engenho da difícil missão de escapar da tentação de instaurar no palco um remake da telenovela. A encenação flui com desenbaraço e leveza. O trabalho foi facilitado pelo bom desempenho do elenco reunido, que buscou encarnar os personagens sem recorrer ao registro naturalista da televisão. Jarbas Homem de Mello revela-se convincente na pele do coronel venal e indecoroso. Em um de seus melhores trabalhos no teatro, Flávio Tolezani encarna com desassombro o herói um tanto ingênuo e confuso com os acontecimentos. No papel de Viúva Porcina, a atriz Lívia Camargo imprime sua personalidade, num esforço vitorioso de fazer o público se esquecer de Regina Duarte, que brilhou nessa mesma função na idolatrada telenovela. Seu desempenho é solar e divertido.

 Luciana Carnieli oferece ótimos momentos como a adorável Matilde, dona do bordel. Com graça, Gisele Lima e Yael Pecarovich interpretam as garotas abusadas do prostíbulo. Além da belíssima voz, Nábia Villela recorre ao humor na composição de Dona Pombinha, mulher do prefeito Florindo Abelha. O alcaide é incorporado com nuances por Dagoberto Feliz. O Padre Hipólito ganhou matizes na interpretação de Edson Montenegro. Samuel de Assis, como Zé das Medalhas, exibe bom timbre vocal e espontaneidade. Mesmo com um personagem sem muitas aparições, Mel Lisboa mostra talento e sagacidade como Mocinha, mal-resolvida paixão de Roque Santeiro. Com boa presença cênica, e executando diversos instrumentos, Marco França faz Toninho Jiló, a figura que simboliza o populacho manipulado. Em dupla exposição, Cristiano Tomiossi dá vida ao Professor Astromar e ao General, o sorumbático militar nem um pouco disposto a aceitar pacificamente o retorno do mártir.

Concebido e desenhado por Débora Dubois, o cenário reproduz os vários ambientes necessários à condução do enredo, como a casa da Viúva Porcina, a praça central e a igreja. Fabrício Licursi elaborou coreografias interessantes, que remetem às imagens das festas populares nordestinas. Os figurinos de cores vivas, de Luciano Ferrari, aliados à iluminação de Fran Barros, conferem uma tonalidade especial à cena. Merece destaque as esculturas de Paulo Bordhin, especialmente a de Roque Santeiro, uma armação grandiosa. Zeca Baleiro faz a direção musical e compôs canções deliciosas, além de ter dado sonoridade às ótimas letras legadas por Dias Gomes. A trilha sonora reúne de baião a bolero, de valsa a tango. É executada ao vivo pelos atores, com o apoio dos músicos André Bedurê (baixo e violão) e Érico Theobaldo (guitarra, percussão e eletrônicos). A produção incluiu ainda dois hits da novela, Dona e ABC do Santeiro, de autoria da dupla Sá & Guarabyra. 

Um dos trunfos da montagem é desembrulhar uma leitura satírica de um Brasil que precisa de heróis para perpetuar os desmandos e distrair a arraia-miúda. Se, afinal, Roque Santeiro encontra-se vivo, toda uma lenda urdida para eternizar interesses escusos estará com seus dias contados. Por isso, ele precisa morrer. Dias Gomes tece uma reflexão instigante e poderosa sobre a construção de um anti-herói. 

(Vinicio Angelici - O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. )

(Foto João Caldas )

 

Avaliação: Bom

 

Roque Santeiro

Texto: Dias Gomes

Direção: Débora Dubois

Direção Musical: Zeca Baleiro

Elenco: Flávio Tolezani, Jarbas Homem de Mello, Lívia Camargo, Dagoberto Feliz e outros.

Estreou: 27/01/2017

Teatro Faap (Rua Alagoas, 903, Higienópolis. Fone: 3662-7233). Sexta e sábado, 21h; domingo, 18h. Ingresso: R$ 80 e R$ 90. Até 25 de junho.  

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