EDITOR: Edgar Olimpio de Souza (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

 

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Cinema: A Criada

Um trapaceia com o outro e ninguém é totalmente confiável no mais recente filme do cineasta sul-coreano Park Chan-wook (Oldboy). Versado na arte da manipulação, o diretor desenvolve um refinado jogo de fingimentos e tapeações, que embala uma trama adaptada de um romance inglês da escritora Sarah Waters, conhecida por abordar relações lésbicas – ele transfere o contexto original da Inglaterra do século XIX para os anos 1930, quando a Coréia era colonialmente ocupada pelo Japão.

No enredo pontuado por guinadas e ziguezagues, o falso conde Fujiwara (Ha Jung-woo) coopta uma moça pobre, Sook-hee (Kim Tae-ri), para trabalhar como criada na mansão da aristocrata reprimida Hideko (Kim Min-hee), que vive ali enclausurada na companhia do tirano e impudico tio Kouzuki (Cho Jin-woong). A jovem terá a incumbência de aproximar a patroa dessa figura sem escrúpulos, que pretende casar com ela, herdar toda a sua fortuna e interná-la em um sanatório. Existem, no entanto, obstáculos imprevisíveis pelo caminho. Até porque estas pessoas apreciam praticar golpes, traições e crueldades. E o palacete, que condensa estilos e traços arquitetônicos orientais e ocidentais, abriga segredos desagradáveis. Não bastasse, ainda irrompe uma paixão não presumida, que logo verte para uma abrasante relação sexual.

Park desempacota uma obra que parece enveredar por um thriller de suspense, mas que lentamente evolui como um drama erótico com subtexto político. Intencionalmente embaraçada, a narrativa se estrutura como um sugestivo quebra-cabeça. Três capítulos compõem a história, cada um externando múltiplos pontos de vista, reviravoltas e novos aspectos e peculiaridades dos personagens – o uso inteligente de flashbacks, por exemplo, oferece uma compreensão mais aprofundada do quarteto.

Um indivíduo que no início se mostrava ingênuo, minutos mais tarde se revelará ardiloso. A fragilidade de um irá depois se transformar em vigor. O orgulhoso despencará para o patético. O recato rapidamente vira despudor. O tempo inteiro a dinâmica do poder é subvertida. Tanto os papéis de dominação e vassalagem são fluídos quanto variáveis são as lealdades. Como alguém está sempre explorando alguém, o público nunca advinha a próxima situação. O elenco, aliás, cumpre à risca a tarefa de interpretar criaturas que transitam da condição de manipulados para manipuladores e vice-versa, num desempenho tingido de camadas de nuances.                      

Se a violência física é mais rarefeita, numa comparação com outros trabalhos do cineasta, a brutalidade emocional aqui ganha calibre. Da mesma forma que a voltagem erótica se projeta sem meios tons. A imoderada atração entre a serviçal e a dona propicia cenas coreografadas de sexo, rodadas em duas perspectivas diferentes. As imagens nada comportadas lembram as tórridas sequências de transa entre as personagens de Léa Seydoux e Adèle Exarchopoulos explicitadas no controvertido filme Azul é a Cor Mais Quente. Há clara alusão à perversão e repressão sexual na cultura oriental. A sexualidade masculina, por sinal, é exposta no filme como um desejo a ser repelido.  Outra passagem tem apelo erótico singular. Colecionador obsessivo de arte e de raros livros eróticos, o tio costuma promover sessões de leitura heterodoxas. Nelas, ele coage a sua sobrinha a declamar ficção erótica na frente de uma distinta plateia, composta por cavalheiros potenciais compradores.

No longa, a libertação feminina da opressão masculina funciona quase como uma alegoria para a vingança nacionalista contra um poder colonial. Cabe às mulheres a insubordinação, porque os homens parecem resignados diante da ocupação estrangeira.  Kouzuki, por exemplo, é um intelectual coreano que venera a cultura japonesa e procura ascendência social imitando o modo de vida do opressor. Ele e Fujiwara escancaram a condição de capachos colonizados.   

(Edgar Olimpio de Souza – O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. )  

(Foto Divulgação)

 

Avaliação: Bom

 

A Criada

Título Original: The Handmaiden (Coreia do Sul, 2016)

Gênero: Drama, 140 min.

Diretor: Park Chan-wook

Elenco: Kim Tae-Ri, Ha Jung-Woo, Kim Min-hee e  Cho Jin-woong

Estreou: 12/01/2017

 

Veja trailer do filme:

 

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