Teatro: Memórias Póstumas de Brás Cubas

O personagem central dessa peça morreu em uma chácara no bairro carioca de Catumbi, em 1869, e foi acompanhado ao cemitério por onze amigos. Então investido do papel de defunto-autor, como faz questão de se autoproclamar, ele decide contar a sua vida. Sua narrativa irá transgredir a ordem cronológica, o estilo regular e fluente, tanto que se iniciará pelo momento de sua morte e não pela do nascimento. “O texto ficaria assim mais galante e mais novo”, como justifica, logo de cara. Aleatório, o relato será pontuado por divagações e embebido por doses de sarcasmo. Já na primeira cena, por exemplo, o finado fia uma jocosa dedicatória ao verme que o corroeu. Brás Cubas está consciente de que manipulará suas memórias ao sabor das conveniências e circunstâncias. 

Personificação de uma abastada casta do século 19, ele é um aristocrata esnobe, medíocre e improdutivo, que não se acanha em desembrulhar suas vulgaridades. Uma espécie de anti-herói que, ao longo de seus 64 anos de existência, nunca precisou suar o rosto para ganhar o pão, jamais se prendeu a mulher alguma e enveredou pela política sem deixar marcas e feitos significativos.

Com assinatura de Regina Galdino, e atuação de Marcos Damigo, o célebre romance de Machado de Assis (1839-1908) virou um instigante monólogo musical cheio de galhofa. Toda a tinta de caráter mais sentimental foi removida para dar ênfase aos aspectos mais filosóficos do livro. O mérito da metamorfose foi que o trabalho de adaptação não deturpou a pena cáustica e mordaz e a exímia habilidade do escritor em brincar com os duplos sentidos. Quase duas décadas atrás, a diretora levou com êxito aos palcos a mesma versão, estrelada pelo ator Cássio Scapin.

A potência e o viço dessa releitura teatral residem justamente na sua capacidade de traduzir com perspicácia o universo abordado pelo romancista. No caso, as entranhas da sociedade carioca daqueles tempos, povoada por uma elite liberal na aparência e predadora em suas atitudes, afeita ao acúmulo de riquezas e tenaz defensora de seus privilégios de classe. O público acompanha uma representação bem humorada, um afiado retrato do comportamento amoral da alta-roda, entrecortada por canções sofisticadamente desabusadas, compostas pelo músico Mário Manga, ex-Premeditando o Breque. Um repertório que passeia por gêneros musicais diversos – a música Virgília, por exemplo, é deliciosamente interpretada no estilo canto-falado da bossa nova.  

Aos poucos, a trama captura a atenção do espectador. Personagens que orbitam ao redor do Lprotagonista entram e saem do enredo despertando curiosidade, estranhamento, afeição. Virgília é quase onipresente. Filha de um figurão da sociedade, casada com o político Lobo Neves, foi amante de Brás Cubas.  Eugênia, a “flor da moita”, é uma moça graciosa que acabou descartada por ter nascido coxa. Marcela, garota de programa com quem teve caso durante a juventude, serviu de álibi para que ele fosse enviado para a Europa. Um antigo companheiro de colégio, o tipo mendigo filósofo Quincas Borba, aparece como seguidor de um sistema filosófico batizado de Humanitismo.   

Qualquer poeira do tempo, que poderia pairar sobre o texto, foi aspirada em benefício de um espetáculo que desdobra uma interpretação contemporânea da história. Assoma ao palco uma mise en scène carnavalizada, que entrelaça com sobras de naturalidade teatro, literatura, música e dança. A eficiente direção impôs marcações que agilizam a movimentação do intérprete pelo espaço cênico, incluindo pontuais incursões dele pela plateia.

Envergando um figurino desenhado à base de retalhos, que simboliza um corpo marcado por tripas expostas, Marcos Damigo desempenha com desembaraço, descontração e meticulosa composição corporal. Na pele dessa criatura farsesca, meio clownesca, que nunca se deixa retrair, ele conquista a audiência desde o início da apresentação. É um ator mergulhado na criação, que canta, dança, equilibra-se de cabeça para baixo. Capaz de, num olhar, mudar a expressão e gerar nuances variadas, transitando da paixão descontrolada ao egoísmo, da razão à sandice. Ele se safa com virtuosismo da atribuição de imprimir genuinidade a um sujeito presunçoso, despojado de ética, que faz uso costumeiro da petulância e despudor como modo de vida. E, principalmente, que cobiça ser uma figura proeminente – o pai o queria ministro, na época trampolim para a glória e a perpetuação do nome da família.

O notável nessa obra é que mais de um século depois de ter sido criada, Brás Cubas não perde a atualidade. A montagem faz questão de iluminar o vazio da existência desse homem parasitário, de trajetória cheia de negativas - não concluiu o emplastro, medicamento destinado a aliviar a melancolia da humanidade, não virou ministro, não conheceu o casamento, nunca foi pai. O desfecho é de uma crueldade singular. Olhando para a plateia, meio resignado, o mimado e fútil endinheirado sentencia: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”. Ao não deixar herdeiros, ele evitou a transmissão genética de sua pobreza existencial.

(Edgar Olimpio de Souza – O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. )

(Foto Alex Silva Jr.)

 

Avaliação: Ótimo

 

Memórias Póstumas de Brás Cubas

Texto: Machado de Assis

Adaptação: Regina Galdino

Direção: Regina Galdino

Elenco: Marcos Damigo

Estreou: 20/07/2017

Teatro Eva Herz (Avenida Paulista, 2073, Cerqueira César. Fone: 3170-4059). Quinta e sexta, 21h. Ingresso: R$ 50,00. Até 29 de setembro.

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