Teatro: O Bosque Soturno

Neil LaBute tem compulsão por retratar a crueldade humana. O dramaturgo norte-americano aprecia cutucar a inesgotável capacidade do ser humano em se desencantar e se iludir com o outro. É o que acontece quando dois irmãos se encontram em um chalé de férias no meio de uma floresta, durante noite fria e chuvosa. Professora universitária, casada e mãe de dois filhos, a intelectual Betty chamou o caçula Bobby, que sobrevive de subempregos, para ajudá-la a evacuar urgentemente o imóvel, após a apressada saída do último inquilino. O marido não podia auxiliá-la porque teria ficado em casa cuidando das crianças.

Assinada por Otávio Martins, a inquieta montagem realça o tema clássico da rivalidade familiar, assunto bastante investigado pela literatura, cinema e teatro. Aqui, a infância conflituosa com o pai dominador, somada à diferença crucial de temperamentos e propósitos de vida, produziu assimetrias inconciliáveis na dupla. Flutuante e atraente, ela acredita que sua beleza está desvanecendo. De gênio rude e sexista, ele não se preocupa em ser politicamente correto e está se lixando para a opinião dos outros ao seu respeito.      

Nessa peça nervosa, rusgas e mágoas são ativadas a partir do momento em que o passado vem à tona, evocando segredos indesejáveis, e circunstâncias do presente ainda subsistem mal resolvidas. Por conta dessas sombras que pairam sobre suas existências, os diálogos transcorrem agitados, as palavras são exasperadas e não demora um clima de mútuas cobranças e suspeição se estabelece. Bobby faz perguntas aparentemente inofensivas à Betty, para evidenciar o quanto suas respostas são vagas. Culpa-a por se intrometer em um de seus casamentos fracassados e está minimamente disposto a esquecer da trajetória promíscua da irmã, em especial o vínculo nada protocolar com um estudante do campus onde leciona. Na defensiva, ela reluta em assumir não só as responsabilidades por atos pregressos como as ações mais recentes. A situação degenera quando, por acaso, uma fotografia comprometedora é descoberta, o que subverte aquilo que o público presumiu num primeiro momento.  

O notável nesse enfrentamento entre Betty e Bobby, além do abismo cultural e o baú de ressentimentos, é a visível conexão entre eles, não inteiramente fraternal. Eles brigam, discutem, discordam até sobre o trivial - como saímos do mesmo ventre?, ela chega a questioná-lo. Mas há uma visível pulsão incestuosa unindo-os. Um sentimento que irá redundar na ruína e queda de ambos.  

A direção de Otávio Martins busca sublinhar com desafetação teses empunhadas por LaBute em seu texto. A de que a verdade seria fugaz e as aparências exibem um caráter enganoso. Mesmo esquemática, a encenação oferece boa dose de imprevisibilidade, porque Betty e Bobby são ao mesmo tempo frágeis e perversos e o tipo de intimidade que cultivam pode ou não ser o que parece. O diretor privilegiou o trabalho dos atores. Desenha passos e movimentos que facilitam o embate verbal e a atmosfera de mistério, capturando sem muito esforço a atenção da platéia. Toda a trama se desenvolve em meio a paredes e móveis de caixotes de feira estilizados, em cenografia instigante concebida por Mirtis Moraes.

Os intérpretes destravam desempenhos convincentes, concedendo humanidade aos seus papéis. Com energia escaldante no palco, Guta Ruiz encarna Betty, mulher culturalmente sofisticada, porém destituída de bússola moral, que age segundo critérios bem particulares e é fustigada por um dilema. No início, se apresenta firme e cheia de soberba, mas na medida em que a narrativa avança, torna-se ansiosa e assume expressões de desespero – é uma dualidade que conduz a personagem para trilhas de real perigo. Também no gume da navalha, Pedro Bosnich combina virilidade com explosões intempestivas de compaixão na composição de Bobby, um sujeito que denota uma visão de mundo cínica – ele é capaz tanto de agredir quanto perdoar no minuto seguinte.    

LaBute desfia um thriller psicológico notadamente marcado pela mordacidade com que lapida as criaturas e demarca suas histórias pessoais. O autor observa o homem com desdém e descrença. Em sua dramaturgia, é muito comum a irrupção de uma reviravolta ou um desfecho chocante. Ao descobrir a realidade sobre o ex-locatário, o espectador irá perceber que a atitude de arrumar o espaço não era apenas uma operação de preparar o ambiente para a eventualidade de outro locatário. Tratava-se de uma estratégia para acobertar possíveis pistas. A obra explora não só o submundo dos relacionamentos entre pessoas da mesma família. Lança também um olhar incisivo sobre a natureza da verdade.

(Edgar Olimpio de Souza – O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. )  

(Foto Gustavo Arrais)

 

Avaliação: Bom

 

O Bosque Soturno

Texto: Neil LaBute

Direção: Otávio Martins

Elenco: Guta Ruiz e Pedro Bosnich

Estreou: 2 de fevereiro

Teatro Eva Herz (Conjunto Nacional. Avenida Paulista, 2073, Jardins. Fone: 3170-4059). Quinta e sexta, 21h. Ingresso: R$ 40. Até 24 de março.

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