EDITOR: Edgar Olimpio de Souza (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

 

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Cinema: Capitão Fantástico

Durante o dia, as crianças praticam exercícios físicos puxados, aprendem lutas marciais, manipulam facas e escalam morros. À noite, se reúnem em torno da fogueira e lêem grandes nomes da literatura mundial em vez de Harry Porter, escutam música clássica no lugar de rock, estudam física quântica e tocam seus próprios instrumentos musicais. Não têm televisão, computador nem microondas. Cultivam vegetais, caçam seus alimentos, banham-se em riachos. Dominam várias línguas, conhecem filosofia e são encorajados a argumentar. O Natal, por exemplo, nunca é comemorado, substituído pela celebração ao dia de Noam Chomsky, o lingüista, filósofo e ativista político de esquerda americano.

Com seis filhos entre sete e dezoito anos, a família liderada por Ben (Viggo Mortensen) e Leslie (Trin Miller) vive em contato com a natureza, solitária entre pinheiros e montanhas na região selvagem do noroeste do Pacífico. Na contramão da tradição consumista, longe das convenções da chamada civilização, assumindo um modelo de vida que aspira à mais pura utopia. Esse idílio, no entanto, é rompido com a notícia de uma morte, que impulsionará o grupo a viajar até o Novo México para acompanhar o funeral, o que fazem a bordo de um ônibus customizado.  

Escrito e dirigido por Matt Ross, esse emocionante e sedutor drama tem como protagonista o tal clã atípico, agora em uma jornada marcada por diversas situações de choque cultural. Em uma parada, o patriarca desce do veículo totalmente nu, provocando desconforto num casal de idosos que por ali passa. Em visita a parentes, os filhos são desdenhados pelos primos por não conhecerem tênis de marca famosa e não acharem divertido jogar violentos videogames. Perplexo com a conduta daquela insólita trupe, o casal anfitrião questiona os métodos educacionais defendidos por Ben. Sem se dar por vencido, ele chama a caçula para atestar a superioridade de sua singular pedagogia.

A sua metodologia de ensino, aliás, valoriza o raciocínio, o poder da reflexão e o exercício do debate. Uma das filhas, por exemplo, lê Lolita, o clássico de Vladimir Nabokov, sobre a obsessão de um professor universitário de meia idade por uma garota de doze anos. Ela diz que está achando o romance “interessante”, mas este comentário seria inválido por ser muito vago e genérico. O pai exige uma análise mais sofisticada. Logo em seguida, a mais nova pergunta o que é relação sexual e o diálogo que se estabelece é impagável.   

O tempo todo o longa se movimenta pelo princípio da dualidade. Sensível e narcisista, Ben é firme e resoluto em seus esforços para dar uma existência diferente aos filhos. E parece indiferente às conseqüências de sua educação à margem de padrões normatizados. Pequenos conflitos e imprevistos começam a dilacerar o equilíbrio do núcleo familiar. O mais velho, Bodevan (George MacKay), autoproclamado maoísta, com inteligência suficiente para ser aceito por prestigiadas universidades sem exames de admissão, se insurge. Reclama com o pai que precisa conhecer outras realidades, além do que aprendeu nos livros. Rellian (Nicholas Hamilton), o do meio, rebela-se e afronta o patriarca. Em outro momento, um acidente fere uma das meninas.

Por sua vez, os sogros ricos conservadores de Ben não estão dispostos a aceitar passivamente o comportamento daquele bando heterodoxo não integrado à sociedade de consumo. Os personagens de Frank Langella e Ann Dowd querem que as crianças cursem escola adequada para se prepararem para o mundo real. Dispõem-se, inclusive, a pedir a custódia dos netos, nem que seja preciso ameaçar de prisão o genro. A gota d´água acontece durante um velório, quando o grupo irrompe na igreja trajando roupas coloridas e espalhafatosas - terno vermelho, máscara de gás, fantasia de dinossauro – e o chefe atropela a fala do padre e dispara um discurso transgressivo.

O conjunto de atores jovens transpira talento e adequação aos papéis. Indicado ao Globo de Ouro na categoria melhor ator de drama, Viggo Mortesen entrega performance inspirada e impregnada de nuances. O veterano Frank Langella é uma figura marcante na tela. Uma cena que reúne a família toda ao redor do fogo cantando Sweet Child O 'Mine, do Guns and Roses, comove e enternece.

O filme suscita várias linhas de reflexão. A luta do idealismo em um tempo onde é tão fácil ser premeditadamente ignorante é uma delas. A outra discute se o pai meio hippie seria um homem anarquista ou irresponsável. Ele está criando indivíduos de pensamento livres ou formando uma geração que, hostil ao consumismo desvairado, visto como uma ameaça à liberdade humana, seria capaz de cometer atos como perpetrar pequenos furtos em um supermercado? O confronto dialético entre dois pólos opostos concede força, fascínio e interesse a essa produção independente. O fato é que a casta de Ben se harmoniza à sua peculiar maneira de viver. Mas precisa encontrar um meio termo para continuar vivendo desse jeito, como é sinalizado no desfecho. Porque corre o risco de esbarrar numa força contrária muito maior, impossível de ser enfrentada de igual para igual. Ao preparar seus filhos para tudo, pode estar preparando-os para nada.

(Émerson Rossi – O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. )  

(Foto Divulgação)

 

Avaliação: Ótimo

 

Capitão Fantástico

Título Original: Captain Fantastic (EUA, 2016)

Gênero: Drama, 118 min.

Diretor: Matt Ross

Elenco: Viggo Mortensen, George MacKay, Samantha Isler, Annalise Basso e outros.

Estreou: 22/12/2016

 

Veja o trailer do filme:

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